sábado, 31 de outubro de 2009

A TRANSA


Cobras mortas no caminho
Imã de pênis nas pernas
Sémem derramado na vagina
Resto de prazer e cópia
De romance rasgado, espalhado
Na peça da casa
Luz acesa na sala
Varanda vazia de vozes
Suor escorrendo nas costas
Seios redondos nas mãos
Beijos molhados de saliva
Néctar, Mel, vinho seco
Mamilos arrepiados
Tocados por dedos habilidosos
Beijo de língua no umbigo
Gritos baixos
Cama rangendo no chão
Movimento repetidamente solto
Entre um corpo e outro
Esquecimento do mundo.
Pelos pubianos que se roçam
Abarcamentos apertados
Unhas cravadas nas nádegas
Cheiro de sexo no quarto
Gozo despejado no rosto.

Franz Tagore

DESAFINAMENTO



Pelo de gato na cama
escama de peixe no prato
veneno de rato no queijo
beijo na boceta doce
dor de cabeça na testa
festa do touro no curral
varal de cordel no mato
tinta na tela branca
lama de massapê no calcanhar
dedo fino de menino
peito redondo de Judite
barriga verde de Felipe
tons de cinza no céu
Corel draw no not book
Roupa estendida na cerca da roça
farofa de galinha no bogó
rapadura raspada no fubá
quipá de ema no terreiro
galo cantando na madrugada
feijão, arroz e umbuzada
corda Grossa na cacimba
banho de piscina na lagoa
frase escrita num papel bonito
cartão postal da caatinga
carne de sol assada no sal

Franz Tagore




foto por: Cristophle Chat Verre

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O CANTO


Imagino as grandes frases
Criadas numa conversa à tarde,
Quando o sol brando, sem quentura
Deixa os bons fluidos adentrarem
Nossos órgãos,
E no inicio de um dia
Quando o sol nasce
Ainda no frio da madrugada,
Também produz boas poesias.
E nas horas que a saudade
Se mostra viva e presente,
Que nos indica o significado
Da distância,
E quando não entendemos
Só escrevemos
O que sentimos
Dentro da gente.
É o mesmo que chorar,
Não temos como dizer,
E as palavras
Derramam-se em lagrimas.
Eu estou com saudades,
Mas, apenas canto.
E deixo que o tempo,
Me leve a quem eu quero.

Franz Tagore

Foto por: Robsson Rodriguess outras mais no: http://www.flickr.com/photos/fotosmatuto/

Em silêncio


Agora estou sozinho na escuridão da noite
Lembrando-me de ti, da tua alegria espontânea
Fazendo versos para acalmar meu coração que te quer
Ouvindo os grilos e os bichos do ocaso
Imaginando sua face jovem
Pairada a minha frente
Desafiando-me
Sempre

Neste
Instante
Vou tentar dormir
Espero não sonhar contigo
Seria apenas a antecipação da minha dor
Aguardo amanhecer e saber se te esqueci de uma vez
Se não te deslembrar amanhã vou te visitar
Para meus olhos te dizerem
Em silêncio
Amo-te


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In silence

I’m now alone in the darkness of the night,
I remember you, and your happiness so spontaneous,
I’m writing these words to calm down my heart that loves you,
Hearing cricket and other whispers of the dawn,
Imagining your young face,
Frozen in front of me,
Braving me,
Always,

Within
A few minutes,
I’ll try to get some sleep,
I hope I won’t find you inside,
It would be just starting the pain too early,
I wait for the sunrise, and to know if I’ll suddenly forget you,
If I won’t, I’ll be with you tomorrow,
So that my eyes can say,
In silence,
I love you.


Franz Tagore

Foto por: Martina Nagl. Tradução do texto para inglês por: Jean Beariux
mais fotos no: http://www.flickr.com/photos/fotosmatuto/

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O CICLO



Idas e voltas ao meu interior
Tentando encontrar respostas.
O coração descompassado
Palpita inevitavelmente rápido.
A busca por chão firme inibe
Minhas concretizações filosóficas.
Sou eu quem está aqui triste,
Por um instante, mas logo vou
Estar alegre e vibrante novamente.
Alguns dias dentro do meu casulo,
Escondido da luz, dos ventos,
Do verde da floresta, dos meus.
E depois acordo para realidade,
Como se acordasse dum sonho.
Continuo a viver, a exibir o colorido
Das minhas asinhas imaginárias.
E depois do retiro emocional volto
Ao campo da fatalidade ocorrida,
Sou novilho, recuperei-me bem.
Estou pronto para uma próxima,
Estou mais forte para a que virá.


Franz Tagore

fotos destas sete primeiras públicações: E. Martina Nagl; Robsson Rodriguess

A CHUVA


Moro num semi deserto
Que quase nunca chove.
Hoje por aqui choveu
E refrescou os ânimos
Dum poeta triste.
Um banho de chuva me bastou
Para tirar a poeira da solidão
Que me assola,
E o tempo que me amola,
Deixou uma brecha de luz
No meu caminho tortuoso.
Choveu esperança
Para um homem de fé,
E me animou
A chuva desta tarde de outubro.
Alguns instantes de alegria
E ninguém do meu lado
Para compartir de tal emoção.
Nestes primeiros dias, só,
Conversarei com os fantasmas
Duma jovem que há pouco
Esteve aqui, justo nesta peça,
Sorrindo e cantando,
Colorindo as paredes,
Que agora são pálidas.

Franz Tagore

A ESTRADA


Num suspiro de alívio
Paro e contemplo
As novas nuvens
Que apontam o horizonte.
Massas abstratas
Tingidas de Hélio,
Trazem esperança de chuva
Neste que é um semideserto.
A beira da estrada que caminho
Um ninho emanharado
Do sol doce da manhã,
Que sobe rápido
Na linha horizontal da aurora
E vou-me embora
Depois duns suspiros
E de ouvir os cantos
Dos passarinhos,
E vou-me sozinho
Andante neste caminho,
Pedregoso, espinescente,
Sem mágoas,
Sem tristeza,
E nem exatidão
Do meu destino.
De menino, sem mimo.

Franz Tagore

terça-feira, 27 de outubro de 2009

VENTO NA JANELA


O frio da solidão
Entra pela janela,
E não tenho você
Para me agasalhar,
Nem na cama logo mais
À noite,
Nem na noite d’outro dia
Que virá.
Apenas o fantasma
Dum vulto colorido
Que transpassa
As paredes desta casa.
E do lado de fora da janela
Um céu que outrora
Era azul,
Mas que agora chora
E tem cor cinza,
E sem rima
As estrofes andam a esmo
E nem eu mesmo sei
Donde pisar.
Rastejo os lugares
Por onde nos amamos
E sem saber onde você estar
Procuro-te em qualquer parte.

Franz Tagore

CACTACEA


Laranjas abas
As pétalas polarizadas,
Franjas da tua saia
Quipá de ema 
Flor cactácea das areias,
Engana os olhos 
Dos curiosos
Que te pretendem...
Ornamento do deserto
Que ao atino do meio dia
Desabrocha sem temer
O solstício sertanejo,
E embeleza 
As fazendas, 
As ribanceiras dos rios
Das baixadas
Flor de quipá
Fonte de néctar 
Das arapuás,
Das mandaçaias,
Das manduris,
Palma dos chãos
Remotos, desabitados,
Coroa de retalhos 
Alaranjados.  
 
Franz Tagore



ARRANJO D’OURO


Hoje meus olhos cobiçaram
Estas lindas flores amarelas
Que pra mim são pinceladas
Dum mestre Van Gogh
Chuva de ouro derramando
Esperança num chão abatido
Primavera que chega
E deixa boa impressão
Para os pálidos que lhe miram,
Mas muitos são cegos
E precisam que lhes mostrem
De perto num papel bonito
O tapete de áurico espesso
Numa fuga das finas flores
Caídas dos galhos fortes
Da Caraibeira na roça.
E meus ouvidos escutaram
O ti-ti-ti dos pássaros,
O glamour dos bem-te-vis,
Erudição para minha vida,
Que por alguns momentos
Passa com saudades
E se vê na pressa de pensar
E não repara nas maravilhas
Como a deste arranjo de ouro.

Franz Tagore

AEROPORTO



Vai-se o meu amor
Voar de volta ao Danúbio.
E eu? Aonde vou agora?
Últimos beijos antes da partida
E meu coração ficou apertado.
Não há muito que fazer,
Vejo-a andar em direção
A sala de embarque,
E cada vez mais distante
Ela fica de mim.
Agora sei que é verdade.
Um último vulto surge,
Em meio às outras pessoas.
Vai querida,
E me leva em teu coração.
Por que você está no meu,
Agora em forma de saudade,
Só seu cheiro,
que fica.
Logo estará na Frankfurt,
No frio dos Alpes da Áustria.
E quem estará com você?
Para te aquecer?
Mas, é preciso que soframos,
E que a ardente lentidão do tempo
Coloque-nos em seu colo. 

Franz Tagore